ADMIRAR UMA PESSOA EVADIDA

Ultimamente, poucas coisas no meu dia a dia trazem encanto. A primeira é a música, a segunda são pessoas das quais admiro.

Em minha última viagem, tive o prazer de encontrar um senhor, talvez nem tão senhor assim, visto que estava cercado de jovens, tomando cerveja num canto, com roupas normais, nada que lhe dissesse que era um senhor querendo ser jovem ou algo parecido. Ele tinha 45 anos.

Chamamos ele para se aproximar, visto que ele estava num canto bebendo, e todo o resto estava bebendo e jogando conversa fora à sua volta. Aproximou-se, apresentou-se e perguntamos se era suíço, pois usava uma camiseta vermelha com uma cruz branca no centro. Não, ele era argentino e contou sua história.

Disse que já conheceu a América Latina quase por completo, restando apenas o Uruguai, que, por ser tão próximo de seu país natal, não se animava muito a visitar. Já morou em alguns locais, como o próprio Brasil, Argentina, Colômbia, Venezuela, Peru… E alguns outros de que não me recordo.

Disse que a vida dele era viajar, era o que gostava de fazer. Começou a viajar aos 18 anos, sozinho, e muito provavelmente faria isso pelo resto da vida.

Cheguei a compará-lo com um barco que não se atraca, mas está sempre a navegar, sem amarras a nada além de sua vontade de viajar.

Sua família possui uma sorveteria tradicional em Buenos Aires, onde seus irmãos e pais dedicam a vida e ele, por não fazer o mesmo, gerou e ainda gera muito desconforto na família, mas, a essa altura, as coisas já estavam mais “aceitas”.

Nunca teve celular e, para falar com a família, ligava mensalmente em algum orelhão. – Eremita moderno? Não. Seria romantizá-lo demais.

Sempre viaja sozinho e não tem esposa. Apenas “namoradas” que encontra durante a estadia em algum país.

Chegou a dizer que, quando percebe que a mulher gosta de verdade dele, ele logo dava um jeito de acabar com isso. O relacionamento que durou mais foi com aquelas namoradas que não se apegaram muito a ele.

Trocamos outras ideias durante a noite, mas logo foi dormir. Tinha acabado de chegar de outra viagem, acredito que era de Salvador. A viagem foi dura, de 30 cansativas horas.

E esse foi um breve relato de mais uma pessoa que encontrei pelo caminho e que me trouxe admiração. Me fez sentir vivo novamente, absorver mais experiências, aprendizado… Me trouxe fé.

Este senhor despertou minha admiração, seja por sua coragem ao sair da zona de conforto e perseguir o que o faz feliz desde os 18 anos, chegando aos 45 com o mesmo prazer e satisfação por viajar sempre; por não se importar com luxo ou coisas superficiais que um dia podemos ter e, no dia seguinte, não mais, como tudo que é material; por sua humildade… e, de acordo com alguns filósofos, a humildade é o princípio da sabedoria.

E, no fundo, eu me identifiquei com muitas coisas do que disse. Talvez ele seja a representação do que eu gostaria de ser um dia. Um dia eu chego lá. Quem sabe?

Uma das últimas coisas que ele me disse foi:

– Va a vivir, va viajar. Viaje.

Acredito que o poema Sou um evadido de Fernando Pessoa seja o que este senhor busca e vive e dá sentido ao título do post:

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.
Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?
Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.
Ser um é cadeia,
Ser eu não é ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

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