ATÉ QUE PONTO SER CONVENIENTE – BREVE DIÁLOGO

“Até que ponto ser conveniente?” – questionou Jorge ao seu amigo num dia de caminho de volta para casa, depois de uma longa noite de festas. Possivelmente, Jorge viu coisas que o entristeceram nesta festa e, mesmo assim, ficou calado. Não era o momento de expor o que pensava; poderia gerar desconforto com as companhias, e isso estragaria os laços de amizade.

“Acha que nos omitindo de qualquer opinião ou ação vá nos fazer melhores ou piores?” – continuou Jorge.

Depois de algum tempo em silêncio, seu amigo tentava encontrar alguma resposta razoável para os questionamentos. Que, aliás, arrisco dizer que a resposta seria mais uma daquelas que saem pela tangente, daquelas que, se ficasse calado, daria no mesmo. O amigo de Jorge é um rapaz educado, polido e sabe se portar em diversas ocasiões, sendo esse porte a aceitação de tudo, não importa o que acontecesse, desde que não agredissem seus dogmas. – Sim, esqueci deste detalhe: o amigo de Jorge era um rapaz religioso. Se havia alguma coisa que poderia irritá-lo de maneira tal, era ferir os dogmas do mesmo. Aliás, sempre foi devoto a todos eles; alguns eram tão ferrenhos que o deixavam infeliz e julgava que os fizesse e fosse feliz. Mas, como era esperado, não encontrou nada resoluto e respondeu:

– Ora, Jorge, não seja rancoroso. Ande, lhe garanto que na próxima festa tudo estará esquecido, palavra!

Jorge, mergulhado em suas questões, ainda continuou:

– E, por acaso, ser uma pessoa vazia de ideias, mas que concorde resolutamente com tudo que lhe é indicado, seja mais fácil de viver? Sempre vejo grandes desbravadores de ideais, como Martin Luther King, Gandhi, Nelson Mandela… Todos eles foram icônicos, conquistaram direitos, batalharam, mas sofreram ferrenhamente. E, afinal, a guerra está aí, o número de mortos só aumenta e pouca coisa mudou. Tanta luta e sofrimento por pouco…

– Talvez a ignorância seja o caminho, a aceitação das coisas como elas são e que você apenas seja um coadjuvante de tudo isso. Tudo de acordo com a vontade de Deus. – disse o amigo.

– E, por outro lado, tantos ditadores, como Hitler, Mussolini, Mao Tsé e Lênin, que também acreditavam em suas ideias cegamente, puderam causar tanta destruição. Percebe aí a disparidade das coisas. Pessoas que acreditavam em suas ideias ferrenhamente foram capazes de fazer coisas opostas. E, se perguntarmos para qualquer um deles, certamente irão dizer que estavam corretíssimos e os opostos, errados.

– É por isso que eu digo: devemos ser alheios a tudo. Lhe garanto que vá ser mais feliz. – insiste o amigo.

Foi logo após esse comentário que Jorge resolveu “cutucar” seu amigo, atingindo um de seus dogmas, para ver até que ponto ele seria tão alheio quanto disse.

– E aquela história de Éden, maçã… de qual seriado você tirou mesmo?

O amigo de Jorge tanto se irritou que a conversa terminou ali.

– Somos alheios a tudo ao nosso redor desde que não nos atinja. Fiquemos atentos e sejamos sábios.

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